"Expo 2000" e novos conceitos
        Em 1999, eles são contratados para criar um tema para a Exposição de Hannover, na Alemanha, a Expo 2000. Em dezembro deste ano, é lançado o single "Expo 2000", com quatro versões variando sobre o tema criado. Este álbum já é totalmente produzido com a nova tecnologia de edição por software, utilizando-se de ferramentas como o Cubase e o Halion, produtos da empresa alemã Steinberg. O resultado é de uma altíssima qualidade de som e precisão absolutas.
        Em novembro de 2000 é lançado um álbum intitulado "Expo 2000 Remix", contendo uma série de remixes de Expo 2000 com músicos convidados pelo grupo, como Orbital, Underground Resistance e DJ Rolando. Embora não seja um álbum do Kraftwerk, é um produto produzido e licenciado pelo Kling Klang Studio. A capa de Expo 2000 Remix traria de volta o trabalho gráfico de Emil Schult. O trabalho gráfico traz os 4 membros do grupo estilizados digitalmente, e que seria utilizado na divulgação dos concertos que viriam a seguir.
        Enquanto trabalham na edição de um novo álbum, é anunciado em 2002 uma série de shows na Europa e no Japão, e uma surpreendente série de apresentações dentro da programação de um festival de rock na Austrália no início de 2003, o "Big Day Out". Em setembro de 2002, eles estréiam o novo formato do show em grande estilo, com shows na casa Vooruit, na Bélgica, no moderno auditório da Cité de la Musique de Paris e em Luxemburgo. Uma surpresa para todos os fãs: o formato de apresentação havia mudado completamente em relação ao palco de 81/91. Nada da enorme estrutura do Kling Klang, apenas 4 pequenas consoles, uma para cada músico, havendo um único telão de 15 metros atrás dos músicos, no lugar dos quatro telões menores dos shows anteriores. Desta vez, nada de roupas neon e óculos escuros, apenas discretas roupas pretas. Mas a aparente simplicidade visual na verdade escondia uma mudança que acompanhava a nova tecnologia que fora adotada pelo grupo: agora todo o controle sobre a interpretação das músicas contava com o apoio de laptops (Sony VAIO, um para cada músico), de onde os membros gerenciavam cada nota e ritmo reproduzido no palco. Os computadores também sincronizavam as músicas com os vídeos exibidos no telão, gerando um som denso e cristalino, praticamente com uma qualidade de estúdio reproduzida ao vivo. Com a nova estrutura de palco, mais leve e portável, tornou-se mais fácil para o grupo excursionar com relativa flexibilidade, já que no período em que o Kling Klang ocupava o palco era complicado planejar as viagens, pois o transporte do material era caro e trabalhoso. Naquele período, diversas apresentações do grupo foram canceladas devido aos custos proibitivos que inviabilizaram a realização dos shows. A prova de que o novo formato lhes permitia mais flexibilidade de ação veio em Janeiro de 2003, quando o grupo realizou oito shows na Austrália e Nova Zelândia, dentro do Big Day Out, um festival onde normalmente se apresentam estrelas e grupos de rock. Foi a primeira vez que o grupo realizou uma série mais extensa de shows fora do circuito Europa/EUA, procurando testar o novo equipamento sob condições diversas. Um mês antes, haviam tocado no Japão em ambiente fechado, sob baixas temperaturas. O contraste com o ambiente aberto de um grande festival como o Big Day Out, sob o calor do verão australiano, serviu como um bom parâmetro da resistência e adaptação dos novos equipamentos aos extremos das condições climáticas que eles poderiam enfrentar em seus futuros shows.
"Tour de France Soundtracks": o novo álbum

        Durante as apresentações na Austrália, Ralf Hütter concederia uma entrevista a uma rádio, onde afirmara que o grupo trabalhava na finalização de um novo álbum, e que este já estaria 99% pronto. As expectativas eram enormes entre os fãs, pois se tratava do primeiro álbum com material realmente novo em mais de 15 anos. Em julho, é lançado um single com 4 faixas, "Tour de France 2003", uma amostra do material que seria lançado no novo álbum que viria a seguir. Em um primeiro momento, houve certa surpresa dos fãs em relação ao tema, já utilizado em outro single lançado em 1983, "Tour de France". O single de 1983 deveria fazer parte de um álbum chamado "Technopop", que acabou não sendo lançado. Como a famosa corrida completaria seu centenário de existência em 2003, o momento era perfeito para retomar o projeto adiado de um álbum dedicado ao tema. A paixão de Ralf pelo ciclismo se fazia expressar através da idéia que já havia sido anunciada em "Expo 2000": "Man, Nature, Technology", a perfeita sincronia entre homem, natureza e tecnologia. Com letras em francês alusivas à corrida, o single trazia 4 novas versões de "Tour de France", minimalistas em sua concepção melódica e rítmica, mas produzidas com uma qualidade sonora impecável.  

        O single preparou o terreno para o lançamento do álbum propriamente dito, que ocorreria em agosto de 2003: "Tour de France Soundtracks" era uma obra totalmente conceitual, trazendo temas que envolviam o ciclismo e a famosa corrida francesa. Os destaques ficariam por conta das faixas novas, como "Vitamin", "Aero Dynamik" e "Elektro Kardiogramm". Para esta última, Ralf Hütter gravou os sons das batidas de seu coração e as utilizou como base para desenvolver o ritmo da música. O resultado é uma sonoridade densa e marcante, um dos pontos altos do álbum. Além de 3 das faixas lançadas no single, o disco ainda trazia uma versão diferente para a "Tour de France" original de 1983, fechando um álbum que, de certa forma, ajustava as contas com o passado, pois o projeto "Technopop", adiado na época, finalmente se tornava realidade na forma como Ralf e Florian o haviam imaginado inicialmente. "Tour de France Soundtracks" teve uma boa recepção de público e crítica, e recolocava o Kraftwerk em na mídia planetária, com várias reportagens e análises publicadas sobre o novo trabalho. Em Novembro, pela primeira vez em sua carreira, o Kraftwerk faz uma apresentação oficial ao vivo na TV, dentro da programação do MTV Europe Music Awards 2003. Transmitido para todo o mundo, o evento apresenta a todos o conceito de palco do grupo, onde som e imagem se fundem de tal forma que as atdestaque enções passam adiante da mera presença dos músicos no palco para todo o espetáculo propriamente dito. O foco está na sincronicidade entre o som, as imagens e as sensações que essas combinações provocam, e não no culto à personalidade dos artistas como estrelas de show business, é como se a presença física deles no palco não fosse tão importante, mas sim o resultado final das relações audiovisuais de tudo o que se percebe em seus shows. Eles apresentam um faixa do novo álbum, "Aéro Dynamik", e a escolha não era aleatória: a música também seria lançada em formato single em março de 2004. Para complementar as novidades do novo álbum e a apresentação inédita na TV, o Kraftwerk anuncia uma nova turnê mundial, incluindo mais de 60 concertos que abrangem a Europa, Japão, Estados Unidos e Américas Central e do Sul. Pela primeira vez, o grupo se apresenta em países como Portugal, Islândia, República Tcheca, Estônia, Letônia, Rússia, México e Chile.
"The Catalogue" e o novo DVD
       Em meio à turnê, mais novidades são anunciadas: todo o trabalho de remasterização dos álbuns que vinha sendo realizado desde o início dos anos 90 está finalizado e será lançado em setembro de 2004: os álbuns "Autobahn", "Radioactivity", "Trans Europe Express", "The Man Machine", "Computer World", "Electric Cafe"(agora renomeado como "Technopop"), "The Mix" e "Tour de France Soundtracks" serão lançados em uma caixa especial, material que será denominado "The Catalogue" (Der Katalog). Os álbuns remasterizados também estarão disponíveis separadamente, em formatos CD e vinil, nas versões inglesa e alemã, todos com a arte dos encartes originais. Os três primeiros álbuns ("Kraftwerk", "Kraftwerk 2" e "Ralf &Florian") também serão relançados, porém em um pacote separado, denominado "Kling Klang Digital Master". Até hoje, estes três álbuns nunca foram lançados oficialmente em formato CD. Além do lançamento do catálogo, os shows começaram a ser registrados oficialmente em vídeo, visando coletar material para a produção de um DVD, a ser lançado no início de 2005.
      Para o grupo que ajudou a escrever a história da música eletrônica moderna, elevando-a à categoria de arte ao mesmo tempo sofisticada e popular, o século XXI traz possibilidades técnicas enormes para o desenvolvimento de suas músicas, e o Kraftwerk já encontrou seu lugar na linha de frente das inovações, como aliás tem sido há mais de 30 anos. Embora já possuam um lugar garantido no seleto grupo de artistas que ajudaram a revolucionar seu gênero, eles permanecem em atividade constante, e suas novas criações prometem fixar as coordenadas dos caminhos que a música eletrônica poderá seguir nos próximos anos.